03/07/2009

Coisas que o medo esconde

Na real, minha grana não dava pro taxi até o aeroporto e se não encarasse alguns minutos esperando o bus na Barra não voltava mais pra casa.

Conferi no celular. Já era cinco da matina,“Daqui a pouco clareia e já não tô mais aqui", pensei.

Não demorou pra surgir escura de um beco uma figura languida e descalça.

Só o notei, por não estar no meu lugar. Na minha terra, onde tudo é mais limpo e a gente é mais bonita, ele seria pisável, ignorável e talvez desprezível.

Mas a Barra não era meu lugar e nós dois sabíamos disso.

Chegou mais perto de sobre passo, como capoeira armando a vingativa, e ameaçou com seu bahianês: - Meu abençoado. Você ta perdido aqui, é? Aqui não tem ninguém por você não, vice? Passe logo sua mochila...

Olho riscado de vermelho e meio amarelado, cuspia fome, talvez larica, molhando meu rosto de raiva e alforria.

Serrei os punhos, mas não os usei. Minha voz é que foi a chibata:

Vaza daqui! Nego de...!

27/06/2009

Coisas que vão na carteira.

Havia sobre a mesa: uma garrafa de ceva, dois copos, um maço de cigarros, um cinzeiro e uma carteira aberta mostrando a foto da Fernanda, (13 anos) e do Tiago, (4).

Guitiele; o dono da carteira e pai das duas crianças tinha 1 ano a menos que eu.

O papo estava chato. Até o momento em que a carteira tomou seu lugar de destaque na mesa,o assunto era eu. Boa parte da conversa de bar rolava sobre minhas trips; lugares que conheci, tambores que batuquei… coisas das quais meu amigo disse invejar. Falou das privações que passou pra se tornar um pai de família "precoce".

Pois foi nessa hora pensei:

Talvez trocasse a garrafa de cerveja, dois copos, um maço de cigarros, um cinzero … por uma carteira daquelas pra poder abrir.

22/07/2008

Aula bem dada.


Clareava o dia na janela do latão enquanto Wilder, meu colega de assento, dava-me lições de quechua*. Foi o tom infantil do meu castelhano, que depois de uma noite em claro ficava mais Port que Ñol, o motivo de tanto esmero na didática.

O mau cheiro, o desconformo, a feiura da gente dormindo no corredor e meu preconceito me fizeram perguntar pela segurança da minha mochila no bagageiro.

Gostei da explicação. Meu instrutor inka disse que ônibus de ida era tranquilo. As pessoas que saiam de Arequipa ainda não eram perigosas. Só depois de viver a vida cara de Cuzco é que aprendiam roubar.

Aulas teóricas pela manhã.
À tarde, em Cuzco, roubaram minha máquina e alguns soles.

10/07/2008

Má notícia

Estavam os dois amigos sentados em um banco de parque. Num daqueles momentos em que qualquer “Comé que tu tá?” ou o mais rápido dos olhares diretos poria em fuga, por entre o nariz e a bochecha, a lágrima que ao chegar à boca semi aberta, com gosto de soro caseiro. Me faria recordar de descobrir que isso acontece quando se esta triste de verdade.

Não chorei ali não. Me despedi de Antônio e tomei o metro para Estação Escuela Militar*.

Só então que a bendita lágrima se libertou da clausura dos óculos escuros trazendo com sigo muitas irmãs.
O pranto foi ruidoso e volumoso.

Esta tudo bem. Na Transantiago ninguém me conhece.

17/06/2008

Um pouco mais.

Sempre que dou um localizar no meu banco de memórias e descubro algo legal, não sei se estou recordando ou descobrindo. De forma mais didática, gosto de dizer que me lembrei de descobrir.

Foi em Pucon que me lembrei de descobrir que para mim sempre é preciso de algo mais que o canhoto da passagem. Pra chegar ao cumen do vulcão Villa Rica precisei, alem dos 2800 e poucos mts, precisei de mais 40° de febre. Mal estar necessário para poder contar com orgulho minha experiência junto a um clássico grupo de turistas que tiravam fotos como se estivessem participando de uma grande expedição ao topo do mundo.

Esforço que também me fez perceber o quão vital um Ipod* torna-se as vezes. Pernas tremendo, nariz escorrendo, mas eu, B NEGÃO, de headphone INSTITUcionalizando cada passo e curtindo a Sabotagem que os pregões em minhas botas causavam na neve e no partido bem marcado do mestre Bezerra.


* Ai pode, segundo o maestro literato sambista Richard Serraria

03/06/2008

San Pedro de Atacama



Enquanto dizias não haver nada para fazer no pueblo. Faziamos caçar estrelas cadentes no deserto até ficar frio demais.



O ladrao de almas e sua Sansung 8 mpx

15/05/2008

Pó de cordilheira 2:

O povo de cordilheira sabe, ja faz tempo, que muito depois de nao existir mais meio de armazenamento pra este de bits, sua mãe ainda vai permanecer ali. Até virar de meteóro ou, segundo o Dyscovery Chanel, que o sol engula a terra e assim nao virar de nada.

Eu mero pedaco de hamburguer urbanóide resignado a meu destino de de asfalto persisto na busca por evidencias factiveis de que este povo vem recebendo o ensinamento eterno-interno. Foi numa antologia de contos chilenos, que encontrei num sebo aqui perto do ap, que me foi revelada em forma de artefato, mais uma peça do intrincado quebra cabecas.
No conto El chiflon del diablo de Baldomero Lillo encontrei aquela que para mim é a prova cabal do dialogo que os chilenos são capazes de manter, não com a montanha, mas tb com o inanimado em geral. O trecho abaixo descreve os últimos momentos de uma mãe ao receber a noticia que seu filho havia morrido em um deslizamento da mina. Saca :

”Los grupos se apartaran y muchos rostros se volvieron hacia la mujer, quien, con la cabeza doblada sobre el pecho, sumida en una insensibilidad absoluta, parecía absorta en la contemplación del abismo abierto a sus pies (muito bom).
Jamás se supo como salvó la barrera; detenida por los cables niveles, se la vio un instante agitar sus piernas descarnadas en el vacío y luego, sin un grito, desaparecer en el abismo. Algunos segundos después, un ruido sordo, lejano, casi imperceptible, brotó de la hambrienta boca del pozo, de la cual se escapaban bocanadas de tenues vapores: era el aliento del monstruo ahíto de sangre en el fondo de su cubil”

Continuo na busca por mais evidencias.